sexta-feira, 11 de maio de 2007

Um lugar chamado Brasil

Comecei a aceitar que vim de uma terra desconhecida. É interessante saber que muitas pessoas desconhecem o Brasil, não só internamente, mas principalmente no exterior.

No supermercado até se acham guias de viagens ao Brasil, mas a viagem já é outra história. É intrigante, pois conseguimos esconder um país com quase 200.000.000 de habitantes, o quinto maior do mundo.

Eu sempre observo a origem das coisas que compro aqui. Já consigo comprar limão do Brasil e uvas sem caroço, produzidas na Bahia.

Ah, sempre tem camarão no Carrefour, vindo do Brasil é claro. Inclusive, camarão aqui é mais barato que na selva. Eu não entendo de logística, mas Manaus sempre foi cara por ser longe de tudo. Agora, como é que conseguem enviar camarão para a Bélgica, pagando-se sabe lá que taxas e fretes. Não deve ser fácil, pois o produto se estraga facilmente... mesmo convertendo para Reais, aqui é mais barato: compro o quilo por €6,00. E não é micro-camarão, mas camarões médios. Mistério :-)

Mas se sair do Brasil é complicado, voltar é mais difícil ainda. Vôos só via Paris, Londres, Lisboa ou Frankfurt. Pacote turístico, difícil de achar. Eu consigo passar uma semana em hotel de luxo na República Dominicana, mas barato que ir para São Paulo e dormir no aeroporto... O produto Brasil é muito mal vendido. Indisponível, caro ou perigoso. Vou ignorar o turismo sexual.

Além dos pacotes turísticos escassos, nossos produtos não são bem identificados. Eu aposto que boa parte do café daqui vem do Brasil, mas nesses casos a embalagem só identifica a marca. Quando o café é da Colômbia ou Equador a coisa muda.

Cada vez mais aceito que vim de um lugar realmente distante :-) A língua portuguesa é minha vingança por não falar francês corretamente, ainda. Como muitos não estão acostumados a ouvir e como o sotaque do brasileiro soa suave para eles, fica parecendo um dialeto de alguma língua próxima do francês. Eles tentam entender, mas demoram para perceber que é outra língua.

Poucos tem noção de nossa cultura. Eu achava que isso só acontecia nos EUA. Para americano, tudo é América Latina, logo deve-se falar espanhol e assim vai. Mas na Europa se tem este tipo de problema também. Andei viajando a trabalho por aqui e vi que a situação não muda muito.

Eu acredito que a resposta para isso é o tamanho real do Brasil. Nosso país é grande, mas não consome proporcionalmente e ainda estamos engatinhando em termos de comércio mundial. Claro, tolos os estrangeiros que ignorarem o Brasil para investimentos, com certeza ainda somos uma mina de outro. Mas esse "desconhecimento" da população em geral é porque falhamos em vender nossa cultura.

Exemplos típicos de documentários sobre o Brasil:
a) Samba e Bossa nova: normalmente antigos ou focando a pouca roupa das meninas do Samba.
b) Pobreza urbana e rural: de todo tipo. Eu estava lendo umas páginas sobre um jornalista inglês. Ele viajou para Manaus e claro identificou o "filé" da cidade.
c) Destruição da Amazônia. Nessa época de revival da ecologia, isso fica cada vez mais presente. Somos os destruidores da maior floresta que sobrou no mundo, porque os outros já destruíram as suas... até nisso ficamos por último. Mas desta vez, ficar por último ou com a última floresta é motivo de orgulho.

Nada contra mostrar nossa realidade, mas esta é composta de pessoas pobres e de outras pessoas também. Existe o Brasil industrial, o Brasil da tecnologia, etc. Acho que estou exagerando, afinal, ninguém é obrigado a entender de geografia e principalmente do país dos outros.

Meu desejo é que o Brasil começasse a vender mais para o exterior e que a riqueza fosse melhor distribuída. Mais negócios, maior o interesse em conhecer o Brasil. Mas para isso acontecer, teríamos que tirar 100.000.000 de brasileiros da linha de pobreza. Consumimos pouco pois muita gente é pobre. O mercado é grande em números, mas modesto em poder de compra. Muita gente ainda trabalha para tentar comer, quando trabalha.

Na verdade, somos nós brasilieiros que não enxergamos o próprio país. Aceitamos a pobreza absoluta em nossa volta e muitas vezes a ignoramos. Lembro de uma favela bem atrás do Studio5. Crianças ricas, comendo a pipoca de ouro do Cinemark e ao atravessar a rua: crianças pobres, olhando. A violência só aumenta, principalmente no quesito crueldade. O que será que fizemos de errado?

O problema é grave. Uma prova disso é pegar o site de uma grande empresa americana. Digamos, a Best Buy. Procure um loja da Best Buy em um raio de 50 Km. Provavelmente várias lojas aparecerão. Faça o mesmo com outras grandes lojas no Brasil. Exclua Rio e São Paulo e veja como a distribuição é diferente. Vazio de consumo.

Sempre melhoramos, isso é verdade. Mas por que o México e outros países da América Latina estão melhorando mais rápido?

2 comentários:

Luis Braga disse...

Nilo,

Acho que tu tá ficando muito culto, daqui a pouco não terei mais vocabulário para falar com você :P.

Nosso País é lindo.... para nós Brazucas, nosso País tem riquezas, tem tecnologia e tem cultura, mas infelizmente NUNCA passaremos de um País comum, nunca teremos políticos sérios, empressários 100% corretos e igualdade social? Isso é sonho.

Para aqueles que tiveram a sorte como nós de fazer uma faculdade devem mesmo é procurar um bom trabalho em um País da Europa e ser feliz.

Sonhar não leva a nada, nosso País não vai mudar nunca.

z3r0k disse...

Nilo,
Acredito que nosso custo de produção ainda é alto. Países como México e Peru optaram pela austeridade do controle fiscal, da manutenção do superávit e pela reforma fiscal.
Esse, acredito, é nosso calcanhar de Aquiles.
Outro dia estava vendo os incentivos de países europeus à países que eles consideram em situação de necessidade. O Brasil não fazia parte deles. fora desse conjunto de países, uma série de exigência devem ser cumpridas para que alguém possa exportar. Para coisas simples que são típicas do artesanato de nossa região é praticamente impossível exportar. Vamos pegar o caso de essências da amazônia. Um sabonete com um perfume qualquer ou mesmo om óleo de alguma fruta ou nóz local. Para exportá-lo, é preciso cumprir exigências sanitárias locais e do país de recebimento. Realmente exportar não é coisa trivial.
Acredito que o Brasil deva de certa forma, usar a mesma tática que os países do cartel de petróleo adotam. Deve ameaçar não vender carnes e outros produtos agrícolas aos países que não derrubarem essas barreiras que tornam o comércio difícil para o produtor brasileiro.
Sem querer parecer radical, quero ver como é que esse pessoal vai poder comer produtos industrializados.
É preciso ousar.