quinta-feira, 19 de abril de 2007

Do mercantilismo à indústria de software

Sempre me pergunto: o que falta para tanta gente talentosa em nosso país realmente fazer dinheiro com informática. Já trabalhei com muita gente boa que sempre corre atrás de dinheiro, seja num emprego fixo ou em contratos de curta duração.

Por que estamos sempre vendendo mão-de-obra e nosso tempo? E por que tão poucos investem em produtos? É estranho um país do tamanho do Brasil ter poucos produtos de uso global. Há gloriosas exceções, mas são muito raras. Li um post muito interessante no Blog do Mesquita sobre bananas e bananada. Esta estória pode nos dar algumas idéias.

O que será que nos falta para sermos empreendedores de fato? Lembro que empreendedorismo foi uma das matérias que mais gostei na faculdade. Na época, era o auge da Internet e da das .COM. O curso falava boa parte do tempo em plano de negócios.

Planejar a empresa é algo muito bom e o plano de negócios ajuda neste sentido. Mas em 2000, pensava-se realmente grande. Grandes sites web com novos serviços, mas que precisavam de milhares de reais para entrar no ar... E o plano de negócios abria as portas dos investidores de risco. Eles investiam dinheiro no novo negócio em troca de ações, melhor que fazer empréstimo em banco. No empréstimo de risco, se tudo for por água abaixo, a empresa fecha e pronto. Se tudo der certo, os investidores recebem o que investiram e claro parte dos lucros (a maior parte :-). O plano de negócios podia ser mais importante que a idéia... deu no que deu. Eu espero que os problemas com a bolha não tenham enterrado de vez o sonho empreendedor de muitos. Esse modelo chegou a funcionar até no Brasil. Não sei se isso hoje ainda acontece lá. Nos EUA, está voltando a acontecer, desta vez com mais pé no chão.

Voltando no tempo...

Eu comecei a ganhar dinheiro com computadores quando tinha 12 anos. Brincava com eles desde 1984... mas depois comecei a vender em casa papel para impressora, etiquetas adesivas, disquetes e o incrível Picotex. Estávamos em plena reserva de mercado, governo militar etc. Eu achava que para ser presidente tinha que ser general, depois alguém me explicou que não era bem assim :-) Nesta época, havia computadores brasileiros como o TK90X, TK2000, EXATO CCE, UNITRON e outros brinquedos raros. Imagine como era isso em Manaus... nos anos 80! Oportunidade para um menino ganhar um pouco de dinheiro e com isso comprar mais disquetes...

Eu tinha um amigo, o Mingo, que sempre teve uma visão empreendedora. Eu aprendi muito com ele. O Mingo sempre estava vendendo alguma coisa, depois começou a escrever programas e a distribui-los em disquete. Na época, sem Internet, a coisa era realmente muito mais difícil. Um dos programas você pode conhecer aqui: Mingo Assembler.

Antes havia o problema da distribuição, quem aceitaria vender software? Gravar os disquetes ou CD-ROM e fazer a caixa de papelão era muito caro, especialmente em pequenas quantidades. Na época, o software ainda vinha com o manual impresso, mais um custo. Hoje com a Internet isso não existe mais. E melhor, pode-se alcançar não só todo o país, mas todos os países do mundo.

Eu acredito que o problema é ainda estarmos vivendo a era comercial do software. Se pensa em um programa de controle de estoques ou um que controle uma pequena loja. Normalmente, o sonho não vai além de conseguir alguns clientes e viver da manutenção do software. Estamos comercializando nosso tempo e entregando-o de porta em porta.

Por que não pensamos em produtos?

A falta de pensamentos deste tipo condenaram países como Portugal e Brasil a um atraso de desenvolvimento em relação a outros países. Nós exportávamos o nosso açúcar, mas quem ganhava mais dinheiro eram os holandeses, que refinavam e vendiam por toda Europa. O risco de manter as colônias era todo nosso, o lucro deles. Se procurarmos em nossa história, sempre foi assim. Trabalhamos muito, mas não somos os que mais ganham com este trabalho.

Será que o mesmo vale para o Software? Eu vejo o modelo indiano e fico assustado. Eles possuem muita gente boa em software. Mas eu ainda não conheço grandes empresas indianas! Ou melhor dizendo: grandes produtos indianos. Existem grandes empresas de consultoria e de desenvolvimento off-shore, mas e de software como produto? Eles estão nas melhores universidades do mundo, gente com formação não falta. Trabalham em empresas como Google e Microsoft, gerando os produtos que usamos e compramos hoje, mas fazem isso nos EUA. Sucesso para eles, oportunidade de mudar de vida tem que ser aproveitada, mas o grosso do dinheiro fica nos Estados Unidos. Tio Sam sabe vender e ainda bem que os chineses ainda não aprenderam a fazer isso sozinhos, mas eles estão chegado lá.

O modelo brasileiro é diferente, pois não exportamos serviços de informática. Ou melhor, não exportamos como poderíamos. Sabemos fazer, não vendemos muito e tem pouca gente de fora querendo comprar.

No meu emprego anterior, nós fazíamos software para empresas nos EUA e Europa. O problema é que um dia, estas empresas deixaram de fazer negócio conosco. E advinhem, nenhum produto foi desenvolvido durante todo o tempo de parceria. Nada ficou conosco.

Esse é o problema de se vender tempo e talento. No final, quase nada sobra. Ok, cria-se gente muito bem treinada e experiente, mas no final das contas isso se transforma em custos e obrigações que você não pode pagar sem um produto. Iniciasse o ciclo novamente, em busca do próximo cliente, do próximo projeto. Isso ocorre em vários lugares.

Nos últimos anos, a coisa parece que piorou. Eu ouvia mais sobre produtos de software na Manaus dos anos 80, do que hoje. E fico preocupado. Será que deixou de ser interessante?

Aqui na Bélgica, devido ao alto custo de mão-de-obra, as grandes consultorias são as únicas a fazer dinheiro com software customizado. As pessoas pensam em produtos, porque o custo de suporte é muito grande e o de desenvolvimento maior ainda.

A indústria de software ainda não é tão comum na Selva, mas encubadoras de empresa não param de surgir. Conversando com amigos, ouço a pergunta: se eu fizer isso, será que vende?
Navegando pela Internet, pode-se perceber que vende-se de tudo. É uma questão de quanto e se será o suficiente para mudar sua vida. Mas se vamos continuar tentando, por que não tentar na direção certa?

Não é fácil, eu sei. Mas parece ser mais um daqueles problemas de falta de fé, autoconfiança. Software é algo que eliminou várias barreiras como distância e distribuição. Os brasilieiros podem competir com qualquer outro povo do mundo. Isso é raro e não estamos acostumados a acreditar que podemos bater de frente com eles. Mas tem que acreditar.

Eu já tive duas empresas. Eu vou morrer tentando. Brasileiro não desiste mesmo.

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