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sexta-feira, 1 de junho de 2007

The Internet Divide

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Impressionante como as coisas voam...

Eu lembro quando consegui fazer meu modem de 2400 bps funcionar com a Connect or Die BBS... fim dos 80, início dos anos 90. Eu quase chorei quando vi os pequenos caracteres coloridos aparecendo no meu micro. Dureza, pois 2400 bps é algo realmente lento, mas na época era normal ter 1200 bps. Mesmo uma página em modo texto demorava para chegar, mas compensava. Pior era acordar meia noite, pois a BBS do Mingo só podia funcionar nesse horário. Estamos no Brasil dos monopólios, linhas telefônicas eram patrimônio e o Mingo havia negociado o telefone da família de meia noite às 06:00.
E só tinha uma linha. A conexão máxima era limitada a uma hora por dia e regras de upload/download ratio eram aplicadas (você tinha que enviar coisas para poder baixar...).
Imagens em 320x200... com incríveis 256 cores. Infelizmente eu ainda não tinha VGA... e sim uma placa EGA com monitor CGA colorido. Uma combinação que eu fiz questão de esquecer como consegui fazer. Mas o monitor fazia 640x200 e a placa fazia algo como 16 cores. Na verdade, a placa fazia até 640x350... mas meu pobre monitor não aguentava tudo isso.

Depois veio a BitNet e outro amigo que programava batches FTP de uma tal de Internet na Universidade Federal (a conexão lá era de alucinantes 9600 bps) para baixar alguns arquivos mais interessantes. Em 1994, já usávamos modems de 14400 bps, mas sofríamos com os inúmeros raios. Até hoje eu desligo o micro se escutar um trovão e evito usar em dia de chuva. Meu tio conseguiu comprar uma hora de Internet na Mandic BBS em São Paulo... tinha que pagar o interurbano, mais US$30,00 por hora se não me engano. Nosso objetivo era baixar um programa de engenharia naval, que ele vira num revista inglesa. O problema é que o arquivo era enorme... coisa de 250 Kb. Demoramos várias horas para baixar o programa, mas incrivelmente ele veio da Inglaterra para nossos disquetes.

Hoje, fui informado que estão vendendo Internet a 50 Mb/s na França. Fico imaginando as possíveis aplicações de tanta banda e rio lembrando do que passamos para baixar os pequenos arquivos. No Japão, parece que a coisa está ainda melhor. Mas 50 Mb/s já é muita coisa.

Lembrando do Pirataria pra quê, eu valorizo mais meu tempo. Tudo que me passa inicialmente pela cabeça seria baixar grandes quantidades de arquivos MP3, DVD, coleções com 1200 livros e coisas do gênero. Ai lembro de experiências anteriores, com bandas e volumes menores e no que resultou... e desisto da idéia.

O que realmente me preocupa é o Internet Divide. Em alguns lugares do Brasil já temos Internet realmente rápida, mas a grande maioria não consegue chegar em 1 Mb/s. Lembro dos dias na selva, ano passado. Eu brigava para ter um pobre ADSL de 600 Kb/s funcionando. Quando o canal funcionava, até que era bom para navegar. Ruim para baixar arquivos. Quando tinha um problema, pode ter certeza que era algo como 1 semana tendo raiva.

Esses tipos de restrições limitam nosso uso de Internet. O Internet Divide fica cada vez mais claro e a distância de países ricos também.

Eu acompanho meus filhos usando a Internet hoje. Nada de páginas estáticas! Eles querem vídeos e músicas on-line. Eu lembro que isso era realmente difícil na Selva. Para ver vídeo, tinha que baixar tudo primeiro. Até os banners hoje passam vídeos. Não esqueço da minha filha, de cabeça baixa esperando a página em Flash do site da Barbie carregar. O botão de reload/refresh era algo que ela já sabia usar.

Mas o grande problema com o Internet Divide é que não seremos incluídos nas próximas ondas de tele-trabalho e de outsourcing. Quando eu trabalhava no Brasil, lembro de reuniões onde tínhamos que explicar nossas latências de 400 ms... coisa inimaginável nos EUA ou na Alemanha. Já na época, isso impedia o uso de VoIP. O Skype melhorou isso, mas sempre estamos atrás. Quando a Internet deixará de ser encarada como artigo de luxo e sim com a mesma importância da energia elétrica?

Eu vim de uma cidade de 1.5 milhões de habitantes, mas estrangulada de todas as formas em relação a Internet. Além do isolamento geográfico natural, fomos excluídos do mundo digital de primeira linha.

Olhando para o presente, entendo como ficamos para trás em outras ondas de desenvolvimento. Demoramos para ter escolas para todos. Demoramos para entender que um país precisa ter políticas sérias para poder crescer. Ainda não exploramos nosso imenso potencial humano. Gente excluída pela pobreza e pela ignorância.

Internet não é luxo. Internet não é tudo. Mas Internet é muito importante. A velocidade de um canal e seu preço podem decidir entre instalar um novo negócio em uma cidade ou país. Negócios geram emprego e riqueza. O acesso a informação deveria ser encarado mais seriamente.

Um comentário:

Rafael Siza disse...

Conheço o Mingo e posso afirmar, sem sombra de dúvida, que é um cara excepcional. Diria que versatilidade não falta na criança e, claro, sua humildade. =D